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Balada de Paula Paula Lima/FCLG
Tem dias que acordo sem saber a direção Sei de tantas coisas, mas sem muita noção Partindo do meu mundo pra outra dimensão Pra onde?
Na na na na na é mais uma vez Na na na na na é sempre assim Eu tenho minhas crenças não sei quanto a você Acreditando nelas, olha o tempo que eu perdi
Sei, sei, sei Se é solidão, eu vou Sei, sei, sei Se é solidão eu vou, vou
Tem dias que recordo sem saber a intensão Sei de algumas coisas, mas sem muita noção Partindo do meu mundo pra outra dimensão Pra onde?
Tenho minhas crenças, não sei o que fazer E outras lá fora que levam você Tem dias que acretido que isso tudo é assim Acreditando nelas olha o tempo que perdi
Sei, sei, sei Se é solidão, eu vou, eu vou Sei, sei, sei Se é solidão eu vou
E sei, sei, sei Se é solidão, eu vou, eu vou Sei, sei, sei Se é solidão eu vou, eu vou...
Sei sei sei... solidão Eu vou, eu vou, eu vou, eu...
Escrito por Uai, eu. às 09h13
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"E descobriu, no passo de alguns meses, que o universo se faz de instantes. Assim, como em noites de muito frio, em que apenas um gesto permite cercar todo o espaço de um terno calor. E assim, incapaz de sorrir, chorou, profundamente grato. E não é que não lhe fosse possível sorrir, não lhe era querido fazê-lo. Não por tristeza ou desgosto, mas por uma estranha sensação de que o choro permitiria esfriar o tempo, e assim, dali alguns instantes, o gesto tornasse a aquecê-lo. Não era preciso chorar, bem sabia. Esse calor, tão raro, mesmo que existisse só para ele, era revivido em cada outros tantos instantes. Revividos em forma tão cálida, que a ausência destes era como o fim. Bem sabia que não o era, mas enfim, são dessas estranhas matérias que os universos se constituem.
Obrigado."
Escrito por Uai, eu. às 15h06
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Nada é impossível de Mudar
"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar."
B. Brecht.
Escrito por Uai, eu. às 00h06
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Começo a conhecer-me. Não existo. Começo a conhecer-me. Não existo. Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, ou metade desse intervalo, porque também há vida ... Sou isso, enfim ... Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. É um universo barato.
Álvaro de Campos
Escrito por Uai, eu. às 10h10
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Saudade
Não tenho mais a saudade, Não sinto mais essa dor ! Meu coração hoje mora Na casa de um vencedor, Onde se habita beleza Não chora flor !
Em solo firme e sentimento Construí feliz morada, Na base em pedra erguí tijolo, Qual liga em aço, fiz cimento !
Pra não seguir no sofrimento Instruí minha jornada, Nem fiz na areia, como um tolo, Abrigo frágil pro tormento !
Nem vendaval, nem tempestade Vão abalar ou sequer incomodar Onde alegria fez um lar Sempre em festa, como esta, E hoje, pra comemorar O doce enterro da saudade !
Não tenho mais ...
Sérgio Cassiano/Mestre Ambrósio
Escrito por Uai, eu. às 00h26
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Les Ephémères
O mundo explode ao nosso redor... as geleiras derretem, os oceanos sobem, as ilhas de nossos sonhos logo ficarão submersas, e continuamos analfabetos do sentimento. Trata-se de nós, de você, de vocês. Procurávamos respostas, mas foram pessoas como nós que fomos encontrar. Aquelas que nos revelam nossa coragem, nossa bondade, nossa fraternidade, eu as chamaria de Salvadores. Aquelas que nos revelam nossa vergonha, nossa covardia, nossa indiferença obstinada, eu as chamaria de Sabotadores. Somos salvadores e sabotadores de nossa vida, somos náufragos e salva-vidas. Náufragos porque comemos o bem de nossos filhos, salva-vidas porque queremos mesmo assim que leiam livros. Essa é a diferença. Tento muito cegamente nos esclarecer.
Les Ephémères
Escrito por Uai, eu. às 19h37
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Alta Noite
Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava No caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia Ninguém com os pés na água Nenhuma pessoa sozinha ia Nenhuma pessoa vinha Nem a manhãzinha, nem a madrugada Nem a estrela-guia, nem a estrela d'alva Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava No caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia Ninguém com os pés na água Nenhuma pessoa sozinha ia Nenhuma pessoa vinha Nem a manhãzinha, nem a madrugada Nem a estrela-guia, nem a estrela d'alva Alta noite já se ia, ninguém na estrada andava No caminho que ninguém caminha, alta noite já se ia.
Arnaldo Antunes/Marisa Monte
Escrito por Uai, eu. às 11h23
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Alberto Caeiro V - Há Metafísica Bastante em Não Pensar em Nada Há metafísica bastante em não pensar em nada.
O que penso eu do mundo? Sei lá o que penso do mundo! Se eu adoecesse pensaria nisso.
Que idéia tenho eu das cousas? Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos? Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos E não pensar. É correr as cortinas Da minha janela (mas ela não tem cortinas).
O mistério das cousas? Sei lá o que é mistério! O único mistério é haver quem pense no mistério. Quem está ao sol e fecha os olhos, Começa a não saber o que é o sol E a pensar muitas cousas cheias de calor. Mas abre os olhos e vê o sol, E já não pode pensar em nada, Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos De todos os filósofos e de todos os poetas. A luz do sol não sabe o que faz E por isso não erra e é comum e boa.
Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores? A de serem verdes e copadas e de terem ramos E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar, A nós, que não sabemos dar por elas. Mas que melhor metafísica que a delas, Que é a de não saber para que vivem Nem saber que o não sabem?
"Constituição íntima das cousas"... "Sentido íntimo do Universo"... Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada. É incrível que se possa pensar em cousas dessas. É como pensar em razões e fins Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.
Pensar no sentido íntimo das cousas É acrescentado, como pensar na saúde Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das cousas É elas não terem sentido íntimo nenhum. Não acredito em Deus porque nunca o vi. Se ele quisesse que eu acreditasse nele, Sem dúvida que viria falar comigo E entraria pela minha porta dentro Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos De quem, por não saber o que é olhar para as cousas, Não compreende quem fala delas Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)
Mas se Deus é as flores e as árvores E os montes e sol e o luar, Então acredito nele, Então acredito nele a toda a hora, E a minha vida é toda uma oração e uma missa, E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores E os montes e o luar e o sol, Para que lhe chamo eu Deus? Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar; Porque, se ele se fez, para eu o ver, Sol e luar e flores e árvores e montes, Se ele me aparece como sendo árvores e montes E luar e sol e flores, É que ele quer que eu o conheça Como árvores e montes e flores e luar e sol.
E por isso eu obedeço-lhe, (Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?). Obedeço-lhe a viver, espontaneamente, Como quem abre os olhos e vê, E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes, E amo-o sem pensar nele, E penso-o vendo e ouvindo, E ando com ele a toda a hora.
Escrito por Uai, eu. às 12h21
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Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente) A Carlos Heitor Cony
Thiago de Mello
Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
Artigo III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança.
Artigo IV Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu.
Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino.
Artigo V Fica decretado que os homens estão livres do jugo da mentira. Nunca mais será preciso usar a couraça do silêncio nem a armadura de palavras. O homem se sentará à mesa com seu olhar limpo porque a verdade passará a ser servida antes da sobremesa.
Artigo VI Fica estabelecida, durante dez séculos, a prática sonhada pelo profeta Isaías, e o lobo e o cordeiro pastarão juntos e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
Artigo VII Por decreto irrevogável fica estabelecido o reinado permanente da justiça e da claridade, e a alegria será uma bandeira generosa para sempre desfraldada na alma do povo.
Artigo VIII Fica decretado que a maior dor sempre foi e será sempre não poder dar-se amor a quem se ama e saber que é a água que dá à planta o milagre da flor.
Artigo IX Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.
Artigo X Fica permitido a qualquer pessoa, qualquer hora da vida, uso do traje branco.
Artigo XI Fica decretado, por definição, que o homem é um animal que ama e que por isso é belo, muito mais belo que a estrela da manhã.
Artigo XII Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela.
Parágrafo único: Só uma coisa fica proibida: amar sem amor.
Artigo XIII Fica decretado que o dinheiro não poderá nunca mais comprar o sol das manhãs vindouras. Expulso do grande baú do medo, o dinheiro se transformará em uma espada fraternal para defender o direito de cantar e a festa do dia que chegou.
Artigo Final. Fica proibido o uso da palavra liberdade, a qual será suprimida dos dicionários e do pântano enganoso das bocas. A partir deste instante a liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, e a sua morada será sempre o coração do homem.
Thiago de Mello
Escrito por Uai, eu. às 11h28
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Quero Sambar Meu Bem Tom Zé
quero sambar, meu bem quero sambar também não quero é vender flores nem saudade perfumada quero sambar, meu bem quero sambar também mas eu não quero andar na fossa cultivando tradição embalsamada meu sangue é de gasolina correndo, não tenho mágoa meu peito é de sal de fruta fervendo no copo d´água
"É preciso mesmo brigar contra certos discursos pós-modernamente reacionários, com ares triunfantes, que decretam a morte dos sonhos e defendem um pragmatismo oportunista e negador da Utopia. É possível vida sem sonho, mas não existência humana e história sem sonho." Paulo Freire
Escrito por Uai, eu. às 12h58
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noite sem sono o cachorro late um sonho sem dono
Leminsk
Escrito por Uai, eu. às 11h47
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SEGUNDO CONSTA
O mundo acabando, podem ficar tranquilos. Acaba voltando tudo aquilo.
Reconstruam tudo segundo a planta dos meus versos. Vento, eu disse como. Nuvem, eu disse quando. Sol, casa, rua, reinos, ruínas, anos, disse como éramos.
Amor, eu disse como. E como era mesmo?
Leminsk
Escrito por Uai, eu. às 11h42
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O haver
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura Essa intimidade perfeita com o silêncio Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo - Perdoai! eles não têm culpa de ter nascido...
Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo Essa mão que tateia antes de ter, esse medo De ferir tocando, essa forte mão de homem Cheia de mansidão para com tudo que existe.
Resta essa imobilidade, essa economia de gestos Essa inércia cada vez maior diante do Infinito Essa gagueira infantil de quem quer balbuciar o inexprimível Essa irredutível recusa à poesia não vivida.
Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade Do tempo, essa lenta decomposição poética Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.
Resta esse coração queimando como um círio Numa catedral em ruínas, essa tristeza Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória.
Resta essa vontade de chorar diante da beleza Essa cólera cega em face da injustiça e do mal-entendido Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa Piedade de sua inútil poesia e de sua força inútil.
Resta esse sentimento da infância subitamente desentranhado De pequenos absurdos, essa tola capacidade De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil E essa coragem de comprometer-se sem necessidade.
Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza De quem sabe que tudo já foi como será e virá a ser E ao mesmo tempo esse desejo de servir, essa Contemporaneidade com o amanhã dos que não têm ontem nem hoje.
Resta essa faculdade incoercível de sonhar De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade De aceitá-la tal como é, e essa visão Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante.
E desnecessária presciência, e essa memória anterior De mundos inexistentes, e esse heroísmo Estático, e essa pequenina luz indecifrável A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.
Resta essa obstinação em não fugir do labirinto Na busca desesperada de uma porta quem sabe inexistente E essa coragem indizível diante do grande medo E ao mesmo tempo esse terrível medo de renascer dentro da treva.
Resta esse desejo de sentir-se igual a todos De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem história Resta essa pobreza intrínseca, esse orgulho, essa vaidade De não querer ser príncipe senão do seu reino.
Resta essa fidelidade à mulher e ao seu tormento Esse abandono sem remissão à sua voragem insaciável Resta esse eterno morrer na cruz de seus braços E esse eterno ressuscitar para ser recrucificado.
Resta esse diálogo cotidiano com a morte, esse fascínio Pelo momento a vir, quando, emocionada Ela virá me abrir a porta como uma velha amante Sem saber que é a minha mais nova namorada
Vinicius de Moraes
Escrito por Uai, eu. às 00h16
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Conheço o meu Lugar Belchior
O que é que pode fazer o homem comum neste presente instante, senão sangrar, tentar inaugurar a vida comovida, inteiramente livre e triunfante? O que é que eu posso fazer com a minha juventude - quando a máxima saúde hoje é pretender usar a voz? O que é que eu posso fazer, um simples cantador das coisas do porão? (Deus fez os cães da rua pra morder vocês que sob a luz da lua, os tratam como gente - é claro! - a pontapés.)
Era uma vez um homem e seu tempo... (Botas de sangue nas roupas de Lorca). Olho de frente a cara do presente e sei que vou ouvir a mesma história porca.
Não há motivo para festa: ora esta! Eu não sei rir a toa! Fique você com a mente positiva que eu quero a voz ativa (ela é que é uma boa!)
Pois sou uma pessoa. Esta é minha canoa: eu nela embarco. Eu sou pessoa! (A palavra "pessoa" hoje não soa bem - pouco me importa!)
Não! Você não me impediu de ser feliz! Nunca jamais bateu a porta em meu nariz! Ninguém é gente! Nordeste é uma ficção! Nordeste nunca houve!
Não! Eu não sou do lugar dos esquecidos! Não sou da nação dos condenados! Não sou do sertão dos ofendidos! Você sabe bem: Conheço o meu lugar...
Escrito por Uai, eu. às 21h24
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"(...) Meu coração há de ser uma torre eu próprio colocado fora dela: onde não há nada mais, nem mesmo dores nem o indizível, nem mesmo o mundo."
Rilke
Escrito por Uai, eu. às 09h58
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